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Designers precisam saber CSS?

Publicado em 13 de novembro de 2018
Autor: Mateus Ávila Isidoro

Disclaimer: sou desenvolvedor front-end, meu senso estético e meu conhecimento sobre Photoshop é de uma profundidade de uma colher, e não ousaria sair da área de código para virar designer, pois certamente passaria necessidades.

Conheci um excelente site que trata sobre a questão de que designers devem codificar, que é o https://should.design/ . A premissa do site é simples: um compilado de todos os artigos que tratam se designer deve ou não codificar, e mostram um timer contendo em quanto tempo que não temos ninguém tratando do assunto.

Trabalhei (e ainda trabalho) com bons designers que não sabem fazer float: left; e designers que tem conhecimento de código que poderiam viver tranquilamente como desenvolvedor front-end. Em todos os casos, a questão da expectativa e da correção é que davam a tônica da conversa.

Designers que não codificam focam mais na expectativa e no feeling estético que querem no projeto; designers que tem bons conhecimentos de código são mais pragmáticos, pois antecipam soluções de problemas, passando até referências da onde eles viram a feature. Em ambos os casos, o controle existe, tanto pelo feeling da experiência estética, quanto pelos ajustes pontuais em código.

O diabo esconde-se nos detalhes.

O que eu acredito que um bom designer para web deveria saber é sobre as unidades de medidas do CSS, tais como vh, vw, em, rem, entre outros. Ao projetar o layout em pixels, ele precisa entender que temos muitas telas de diversos tamanhos. Na entrega do projeto ao desenvolvedor, é importante ele definir que o slider da home tem altura de 100vh, e que o vídeo precisa estar em resolução 16 x 9.

Um bom designer foca seu trabalho nas métricas de usabilidade e de tamanhos de telas mais utilizados no mercado. Ainda é um sonho distante para mim, mas o ideal é ter em todos os projetos as telas de 3 ou 4 resoluções mais utilizadas.

Qual é a quantidade necessária de CSS que um designer precisa saber?

A resposta depende do quanto de controle que o designer quer ter do layout produzido. Vamos comparar duas frases que recebi em duas correções distintas de projetos:

  • Tem muito espaço no mobile, entre estas duas divs. Diminui ai uns 30%. O designer deste projeto está focando no global do design, e ele não me passou qual padding ou margin, mas sim o quanto que fica legal, torcendo para que o desenvolvedor ajuste corretamente.
  • Diminui a fonte do H1 de font-size: 50px para font-size: 48px. Este tipo de controle fino do designer ajuda o desenvolvedor a ser mais produtivo, pois ele sabe qual é a tag que precisa ser atualizada

Num primeiro momento, parece que o segundo designer, que sabe css (ou ao menos sabe usar o inspector) leva vantagem em relação ao desenvolvedor. Por outro lado, sou de uma opinião de respeitar as barreiras da outra profissão. As demandas do designer de uma agência pequena podem estar sendo utilizadas em Social Media, sites, parte gráfica, logo exigir deste(a) pobre coitado(a) que saiba mexer em bootstrap é exagero.

Por sorte, nossa comunicação tem sido facilitada com os esforços de desenvolvedores de Browsers com o Inspetor de código, cuja usabilidade fácil auxilia equipes a falarem a mesma língua. Esta ferramenta pode ser a porta de entrada para um designer que queira se aventurar no mundo dos códigos, mas acredito que, respeitando as atribuições e a carga de imenso trabalho que os designers possuem, se me passarem prints dos ajustes feitos, já ficarei muito satisfeito.

Poderia concluir que sabendo usar o Inspetor do Browser é o suficiente. Mas a questão de fundo não é a somente a atribuição, é sim a economia.

Mas por que ainda temos vagas que exijam designers que codifiquem?

Mudando um pouco o foco da questão, a necessidade de que designers codifiquem tem diretamente a ver com as vagas que lhes são oferecidas. A maior necessidade que vejo no Brasil (por puro achismo aqui) é que há uma lacuna a ser preenchida com designers especializados puramente em web. O que ocorre é que um profissional formado para o mundo gráfico acabe fazendo também webdesign, aglutinando novas e complexas responsabilidades.

Eu tenho duas teorias que sustentam esta questão: a primeira é que a profissão de designer para web e desenvolvedor front-end são muito recentes na história, mal tendo 20 anos em cada. Designers e programadores existiam muito antes, mas esta dobradinha para a WWW é recente. Os processos produtivos ainda estão se consolidando, tanto que se tem alguma coisa que rivaliza com a quantidade gigantescas de frameworks de javascript é de propostas de produtividade de trabalho para web.

A segunda questão é que o desenvolvedor front-end é o profissional que produz mais valor para o dono da empresa. Se existir um designer que sabe pegar um tema do WP e editar o CSS, então a produção de capital vai nas alturas — pois pagaria um salário ao invés de dois. Esta claro pra mim que o gestor que enxerga que um designer precisa codificar está negando toda a evolução que a profissão teve nestes últimos anos.

Em vias de conclusão

A grande questão de fundo está na divisão de trabalho entre as profissões. Como não existe ninguém multi-tarefa, partimos do pressuposto da valorização de qualquer profissional, ao reconhecer que as atribuições já são grandes demais, e estabelecer relacionamentos confortáveis entre profissionais. O ganho de qualidade que os projetos podem ser enormes se colocarmos os profissionais em ambientes onde são mais produtivos. Projetos com maior qualidade dão a sensação de dever cumprido, e obviamente são melhores recompensados. Antes um projeto sensacional do que 10 ruins.


Originalmente disponível em https://medium.com/@mavisidoro/designers-precisam-saber-css-fdb35587327c