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Dois dedos de prosa sobre o fim do EdgeHTML

Publicado em 13 de dezembro de 2018
Autor: Mateus Ávila Isidoro

O assunto do momento para nós desenvolvedores web é o fim do suporte da Microsoft para o seu motor web EdgeHTML. Há muitas implicações que podem ser, ao mesmo tempo ótimas e ruins para a comunidade.

Microsoft e os padrões web

Quem tem mais de 10 anos de desenvolvimento web sabe o sofrimento que era dar suporte para o Internet Explorer 6 até o 10, que eram lentos para oferecerem atualizações e melhorias. Acredito que todos os programadores trabalhavam orientados a um browser decente, entretanto, no final do projeto tinham que incluir um monte de polyfill pro IE. O desenvolvimento antes do Edge era muito trabalhoso, sendo uma luta constante entre desenvolvedores e a equipe de marketing para definir qual versão daríamos suporte mínimo, ou então usar técnicas como progressive enhancement.

Lembro de casos de empresas que simplesmente faziam versões web exclusivas para o IE, de maneira mais simples do que ofereciam para os usuários do Firefox, e depois do Chrome. Mesmo com a vinda do excelente modernizr, suportar o IE era bastante trabalhoso.

A Microsoft tem muita culpa no cartório, pois pouco se movimentou para oferecer soluções atualizadas de seu Sistema Operacional. Ficou 5 anos entre os lançamentos do XP e do Vista, e, para ajudar, foi um grande fracasso comercial. Nos últimos 10 anos, o Chrome, com pesados investimentos do Google, começou a galgar um vertiginoso crescimento da adoção nos PC, auxiliado por uma lei na União Européia que punia a empresa de Redmond por uma política de monopólio.

O Windows 7 foi um grande sucesso por absorver todas as críticas do Vista, mas não ofereceu uma solução de browser capaz de competir com o Chrome. O Windows 8 não houve grandes inclusões e melhorias (de fato, foi um grande fracasso comercial), apenas preparando terreno para o Windows 10. Na versão 10, a Microsoft ofereceu o Edge, um browser desenvolvido com o motor edgeHTML, com inúmeras melhorias de performance e de suporte de tecnologias em relação ao Internet Explorer.

Entretanto, a corrida dos browsers estava perdida: enquanto a Microsoft mantinha-se a frente no desenvolvimento de Sistemas Operacionais (não julgo aqui a qualidade do SO, apenas a quantidade de pessoas que utilizam no mercado mundial), a sua parte web evoluía a uma velocidade muito baixa. Para se ter noção, o Edge lança uma nova versão de seis em seis meses, enquanto o Chrome e o Firefox mantém uma periodicidade média de 45 dias! Considere ainda que os upgrades são feitos na marra: tanto Chrome enquanto Firefox possuem o update automático, já o Edge só é aplicado quando o Windows atualiza-se por completo.

Isto se reflete nas pontuações dos browsers. Usaremos o Can I Use como base para avaliar a qualidade dos navegadores:

  • Chrome 70, 344 pontos (usa webkit)
  • Firefox 63, 324 pontos (usa o Gecko Quantum)
  • Safari 12, 291 pontos (usa o webkit)
  • Edge 18, 263 pontos (usa edgeHTML)

Quanto mais demorado é o ciclo de atualizações, mais defasado se torna o browser. Logo faz sentido mexer nesta equação.

Se não dá pra vencer, junte-se a eles.

O anúncio veio como uma bomba no dia 3 de dezembro de 2018, comemorada por alguns desenvolvedores que poderão meter o pé no acelerador na implementação de novas features, com a certeza que o suporte já está sendo dado pelo motor Webkit. Se olharmos o salto de qualidade que o Edge terá, ele sairá de 263 pontos para 344, o que significa que ele passará o Safari e o Firefox.

Mas qual é a estratégia da Microsoft? Oficialmente, a Microsoft quer deixar claro aos desenvolvedores que ela está comprometida com o mundo open Source, trabalhando em inúmeros projetos da comunidade. Numa visão de negócio, imagino que melhorando o browser, seja uma forma de manter a liderança do mercado no segmento de Sistemas Operacionais em Desktop contra a Apple.

Mas nem tudo são flores

A mudança do motor no Edge pode ser muito ruim para o desenvolvimento de engines web no futuro. O fato de termos apenas o Gecko como concorrente, e ele a taxas muito baixas de aceitação do mercado, dá a ideia de que a internet será regida pelo Webkit, que forçosamente irá assumir papel de monopólio – ou, de certa forma – da face da internet. O monopólio, em qualquer forma/estrutura social é danoso, pois ele vive apenas para manter-se dominante.

Eis a internet! (da série IT Crowd).

Mesmo que um desavisado ache que estamos nos livrando da maldição do IE e dos engines da Microsoft, temos que reconhecer que ela ofereceu ao mundo especificações importantes como o contenteditable, que tem suporte desde a versão 6 do Internet Explorer, e o CSS grid, que é o novo queridinho dos layouts CSS, desde a versão 10 (que é com uma especificação diferente do que temos hoje, mas a ideia foi lançada primeiro em Redmond).

O ponto focal do texto é que o ritmo de implementações de melhorias e especificações poderá ter uma evolução mais lenta, pra não dizer que corremos o risco de ter um lapso tecnológico como houve entre o Windows XP para o Windows Vista. Espero estar errado.

Links úteis

Atualização dia 14/12/2018

Este artigo explica melhor o funcionamento de cada browser, deixando claro que a ideia da Microsoft ao migrar de engine é ruim para todos.